agosto 16, 2007

Um Copo D'água - Colaboración desde Brasil


UM COPO D'ÁGUA
Ronaldo Monte

O corpo do homem sentado em minha frente estava seco. Seus músculos finos colavam nos ossos e eram cobertos por uma pele fosca, quase acinzentada. A alma daquele homem também estava seca.

Sua fala desfilava automaticamente uma série de registros, blocos de traços de memória, comunicados sem qualquer emoção: a casa em que sempre morou, uma velha mansão que já experimentara seus momentos de fausto, agora repartida apenas entre ele e sua mãe. Essa mãe distante, refugiada em seu quarto, que ele apenas entrevia quando passava pela porta do cômodo em penumbra. Aqui e ali uma breve menção a um pai, já morto, homem de prestígio enquanto vivo.

O resto era um amontoado de cenas curtas, flashes de suas errâncias noturnas: sessões coletivas de picos; baladas em boates gays; transas apressadas em banheiros mal-cuidados, despertar em lugares desconhecidos em companhia de estranhos, ou amargamente só e depenado.

O corpo seco do homem sentado em minha frente me dizia que havia muito pouco a fazer. Um copo d’água, pensei. E se eu lhe der um copo d’água? Mas não fiquei certo de que o copo d’água era mais importante do que a minha presença. Tinha que sair da sala para buscar água e tive medo do que ele pudesse sentir com a minha ausência. Não lhe dei água.

Teria sido a última vez. Não voltou mais à minha sala. Semanas depois, soube que tinha desistido da vida. Até hoje ainda penso que um copo d’água o salvaria.

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