junio 14, 2007

Ao pó - Colaboración desde Brasil


AO PÓ
Ronaldo Monte

Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira,
já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto.
Demorou-se um pouco com a mão suspensa,
resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão.

Quem disse que não se pode ver o tempo?
Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo.
O tempo tinha a sua cara.
Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida.

Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia.
Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu.
Gastou fortunas com cremes milagrosos.
Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox.
Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí.

Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via.
Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto.
Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco.
O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes.
Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém.
E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.

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